



Fotos de Moyses Martins Castelo Branco
Vídeo dança protagonizado pela bailarina Déborah Radassi da CIA de Luzia Amélia, Teresina -PI

Vôo
Cheiro de hortelã estragado
Aquela fumaça branca, branda
Brada quedas, que fera?
Vem beijando a pele devagar
Lambe ouvidos, some com vícios
Olhos em fundo de copos
Anestesio tudo que toco
Chãos caem na gargalhada
Mas eu nem terminei a piada
Minha pele flutua devagar
Mas acabo não sabendo
se estou ou apenas vivendo
[no sonhar.


Cineas Santos avisa também que já se desligou da Fundação Quichote e não participará da organização do Salão do Livro do Piauí, o Salipi. “Eu já me desliguei. Não posso cuidar de uma fundação que tem negócios com outra fundação que eu presido”, afirma.





A lenda de Da Cruz
Da Cruz era um típico menino das emprenhas da capital Piauiense, catador de caju, não de gente. Vivia em uma casa de taipa, uma construção meio paia, obra de envergadura do Estado, mas não serve nem pra barraco. Seu Augusto, seu avó, sofrido homem, veio de Pernambuco pras terras de cá fugindo da violência que o açoitara dês de seu nascimento, sua família morta em um confrontamento - de terras, lhe restando apenas seu neto e seis castanhas de caju pra plantar.
A cobiça subjuga a amizade, um aperto de mão conquistado na viajem se transforma em tiroteios e inimizade. Seu Augusto plantou o caju e colheu mau agouro em um fruto do mais gostoso que um pé dessa estirpe poderia produzir, ganhou fama, pôs caju no mapa.“Esse pé de caju ainda vai ser meu!” exclama João dos Urubus, antigo amigo de Seu Augusto. “Vem pegar, traíra!” retruca Seu Augusto - assim começou o conflito do caju.
No final as marcas de tiro sobre o barro, ainda ecoando no falo das corujas de noite. E no barraco um dos fados que Seu Augusto deixou, depois de duas facadas na barriga, para Augusto mais do que feridas, pois ali deitado, do lado, Da Cruz, Seu Augusto diz adeus e abençoou.
Mais que revolto, Da Cruz era um típico menino das emprenhas do Poty Velho, e foi buscar o coro de morte de João dos Urubus na outra extremidade da cidade. Da Cruz armou uma, e catou a cabeça de João na rua, na calada silenciosa da lua.
E aí ficou assim, Da Cruz se transformou - desordeiro e badernei - conhecida lenda do confronto do caju no Piauí inteiro. Diziam, escondidas as bocas provincianas da capital que Da Cruz tinha feito um pacto matinal com o cajueiro, que para muitos era mágico, assim como esquisito, até demoníaco. Mas o trágico, após isso o cajueiro murchou e nunca mais se teve notícia do que ficou. Se visto, Da Cruz costuma portar em sua boca uma espécie de cachimbo, andando e correndo com uma velocidade anormal e rastejava escalava em postes como galhos de caju até diz o jornal “Só falta entrar na terra e florescer”.
Mas de tanto, avisam Da Cruz, “esse cachimbo ainda vai te matar, rapaz”.
Eis que revoltados os filhos de João dos Urubus tentam subjugá-lo, mas Da Cruz, muito rápido dança como a fumaça e na caça Da Cruz é surpreendido na raça, e com mais um jogo de arma, uma bala disparou, acertou o próprio irmão e em um discurso metafísico distraído, Paulo, irmão mais velho, puxou Da Cruz inquieto e ambos caíram em fios elétricos. Era o fim para os dois.
Mas um gemido no abismo onde caíram ecoou depois dos raios e piscos da corrente. Era Da Cruz que por causa do cachimbo evitou morder a própria língua e quebrar os dentes. Atormentado escolheu os becos da cidade e pulando de poste em poste, de praça em praça se esqueceu e desapareceu mas ainda ouvindo sussurros - “Esse cachimbo ainda vai te matar um dia”

O conto de Madalena
Madalena, tão jovem, tão precoce. Vivia ainda sua adolescência de revistas de fofoca e astrologia. Acreditava em tudo isso, era uma moça comum em sua capital, mantinha seus princípios com a ajuda de “frases do dia”. Mas que boa vida? As aventuras de suas bonecas com seus batons coloridos, sempre insinuaram algo além do divertido, do glamour brega de sua idade. Mas Madalena, tão jovem, tão precoce. Vivia um mundo de transformações absurdas e incontroláveis, um dinamismo de informações, ditaduras de comportamento, e moralidades. É difícil Madalena, eu sei. Pois então conto, caro leitor, essa curiosa história.
Madalena, tão jovem, tão precoce. Um dia como outro, de não sorte, mas felizmente não rodeando a morte, pois a se debruçar em um computador, mais parecendo uma condor rodeando a sobremesa. Era voraz, janelas abrindo, o gosto de mais, incapacitava o raciocínio verdadeiro, e os sentimentos jaz.
Uma janela levava a outra, e clicks insinuavam outras, palavras descobriam outras e como se fossem rasgadas, baldeadas, banalizadas. Um susto!
“Meu deus, o que é isso?” aterrorizada. Ela sabe o que poderia ser, mas nunca esperou um confronto direto, assim na cara, como um tapa que a faz acordar. Ela sim, já leu em suas revistas pós-modernas, algo que nada lhe completa, dizendo sobre as tentações carnais, e assim de click em click: imagens reveladas.
Há! Quão nojento, quão humano, mas tão jovem, tão precoce, Madalena se sente estranha na juventude de seus 12 anos. Mas que movimentos? Mas que violência? O caro leitor, por ventura, vai ficar mais embriagado de pós-modernidade e imoralidade, após contar, que Madalena não tinha nem ainda conhecimento de seu fluxo rubro, que lhe transformaria em uma moça, vamos dizer, biologicamente.
Mas Madalena, tão jovem, tão precoce. Aprendeu as questões do toque, que de noite em noite vinha à imagem na cabeça. “Mas para que serve isso?” diz Madalena, nas noites quentes na rede.
Primeiramente a rede áspera dançava fiapos salientes, se enroscava. Depois o travesseiro macio, brigava com as pernas torneadas e a ligação com os quadris era um prazer “contor-sente”. Até que as mãos invadiram o próprio corpo, somente ela bastava. Mãos pequenas a brincar com lua rosa e molhada. A sensação sobe as alturas, e a adormece.
No dia seguinte, o escorregadio, e os pingados do líquido enigmático acompanhados do volume de Madalena na rede, chamavam atenção dos familiares, e sua mãe. “Pensava que somente homens ejaculavam em sua puberdade” pensou a mãe aflita e boquiaberta. “Minha filha, você está bem?” diz a mãe em um sussurro de medo. E ainda boquiaberta, mas não esperta, não percebeu um suave movimento, e em seguida um gemido horrendo e forte, mas não era de morte. Um jato grosso esguichado jorrou para todo lado, e na face da mãe pegou
Oh! Madalena, tão jovem, tão precoce.
P L Magalhães


Sobre o que sonhar?
O que há de interessante nas unidades de utilidades domesticas, amuletos hipnotizantes da indústria pós-moderna? O que há de artístico, estético, sentimental em objetos de utilidade do bem-estar familiar? Sob neblinas se instalam essas pertinentes respostas. Porque assim, talvez, seja reflexo da capacidade do ser humano de ser relativo às perguntas que lhe convém indagar e também porque as coisas próprias sejam relativas fazendo um contraponto, numa paradoxal mistura com o sentido humano. É complicado dar nome às vacas sem saber ao certo se são vacas ou não, e se você é leigo a essa espécie, como apontar, como nomear?
Bem, metáforas à parte, o importante é que para muitos existe uma sensibilidade nos objetos domésticos. Mas como sentir tal sensibilidade em algo de utilidade repetitiva, com objetos “sem” cor, objetos sem apelo visual. Pois então que entra a grande roda da pós-modernidade, a interessante interferência da filosofia na arte, não que antes não existisse, porque antigamente, quando as cores tinham mais natureza do que química, a filosofia estava restrita a interferências dentro da arte. Diferente, mas não totalmente, da atual arte que exige e é exigida uma maior interferência da filosofia. A filosofia faz um paralelo com o social, a própria filosofia, a liberdade das coisas, o englobamento da arte com as coisas e assim criamos uma filosofia-arte. Agora a arte está desvinculada dela mesma, ou talvez seja somente um novo modo de ver a arte, mas o que é a arte senão algo que toca e sensibiliza o homem? As obras se estendem além dos quadros, inventam as instalações e o mundo arte-filosofia, filosofia-arte se transforma e continua crescendo.
O projeto. O material reflete nos sonhos.
Talvez um beijo na boca de fogão não seja a coisa mais limpa que você vá encontrar. Além dos desengordurantes podemos provocar criativamente o encontro de dois agentes que nunca se encontram, e não teria porque se encontrar. A boca de fogão recebe as investidas de limpeza de um objeto, para o primeiro, além, isto é, aquela espécie de cotonete ao lado do vaso sanitário, geralmente sujo, mas paradoxalmente de utilitário, o limpador de vasos. Ele limparia a boca do fogão? Talvez no meio cotidiano não, mas quem sabe no querer artístico e filosófico? Outrora, sem graça e repetitivos, elementos se tornam cômico, irônico e ao mesmo tempo de cunho sério. Paradoxal, não acha?
Aos interessantes objetos, porém se vêem à necessidade de um detalhe, uma espécie de cola que iria mantê-los definitivamente coerentes na coexistência dos dois. A boca se encontra em uma metáfora, onde sua nomenclatura dançava com sua chará. À boca humana que constantemente se sujeita um pastoso ácido, para se limpar, “seria um desengordurante?” diz a boca de fogão, mas simplesmente é o que precisamos para fazer essa ligação artística. Fazemos então um paralelo de limpeza, onde há a troca de elementos e os objetos se interferem. A boca de fogão é limpa com o limpador de vasos, com a ajuda da pasta de dente. Formando analogias e encontros cotidianamente desnecessários, mas que artisticamente e filosoficamente fazem sentido.
